E quanto ao final?

Era uma noite fria, típica de um final de outono e quase começa de inverno. Lá estava nosso herói, sentado no último assento do lado esquerdo do ônibus, sem se importar muito com o barulho das portas que se fazia necessário com o entra e sai dos passageiros. Nada muito reflexivo lhe vinha em mente apenas observava a conhecida paisagem que tem o poder de sempre surpreender, afinal, sempre muda. Tudo muda.

Ele subiu tanto que seu corpo se descolou do banco, o ônibus havia passado por uma lombada em alta velocidade, e quem está no fundo sempre sofre mais com essas situações. Foi um chacoalhão, lembrou que buscava inspiração para algo, andava meio distraído ultimamente, sem viver muitas emoções ou fazer coisas novas. Despertou do seu quase transe e passou a observar através da janela de forma mais crítica. O que havia acontecido mais cedo? Bem, as pessoas sempre nos surpreendem, seja de forma positiva ou não. Lembrou-se de uma cena passada pela manhã, não apostaria dez centavos na bondade daquele homem no metrô, pois bem, esse mesmo homem deu seu lugar a uma senhora. Depois de ver aquela cena, percebeu como errou, errou em tê-lo julgado e em julgá-lo errado.  Mais ainda lhe restou um sorriso que apareceu quando se deu conta que foi surpreendido, que essa não foi a primeira vez e não seria a última.

Havia achado inspiração. Reconheceu que a culpa não era da vida que estava lhe pregando peças, não era a vilã da história, ele é que não estava vendo as coisas de uma forma correta, não estava sabendo aproveitar cada momento, visão ou gesto. Tinha esquecido como as pequenas coisas da vida são as mais belas e às vezes as mais importantes.
Chegou em casa, admirou seu tempo e foi grato, passar por aquela calçada havia se tornado tão banal. Lembrou-se dos tempos de infância, as risadas com gosto de Tubaína e cheiro de salgadinho sabor cebola, o sangue no asfalto durante o futebol de rua, pois alguém sempre chutava o chão, os restos das bexigas cheias de água que estouravam e levavam embora o calor das tardes de Julho.

Abriu a porta e viu uma folha, logo pegou um lápis e se sentou em uma cadeira. Já que estava se sentindo tão vivo, por que não tentar a sorte escrevendo algo? Sua mão segurava firma aquele pedaço de madeira enquanto o grafite escorria por toda aquela imensidão branca. As riscas da folha ditavam os passos daqueles “ballet”, um giro aqui, outro ali, “vamos para a linha abaixo”, “desvie dessa lágrima ou vai borrar”, “um pouco de borracha aqui”.

Foi escrevendo sem se importar com o tempo, sem se importar com o cansaço ou com a fome, Ele estava criando e nada podia impedi-lo, há muito tempo esperava por um momento como aquele. A mão já cansada deixou o lápis cair, restos de borracha pela mesa e pó de grafite na palma de sua mão. Um texto nasceu.
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Um comentário sobre “E quanto ao final?”

  1. Existem pessoas que passam pela vida e nem dão conta de que não viveram e apenas sobreviveram do jeito que os mais espertos quiseram. Outros no entanto, riem dessa manipulação e sabem contemplar a vida. Estes conseguem ver luz e beleza onde a maioria na vê, nada produz.
    Continue a usar suas asas, afinal de contas; enxerga mais e mais longe apenas os que tem coragem de voar mais e mais alto.

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