Não uso capa

Eu ando sozinho por uma rua que desconheço o nome, raramente sei onde estou indo e até prefiro que seja assim, Não trago comigo quem eu amo nem quem não amo, é sempre mais seguro que eles fiquem onde estão.

Tenho síndrome de super-homem e acho que sou intocável, indestrutível. Não aguentaria ver alguém machucado por menor que fosse o trauma, não aguento a sensação de impotência que tenho quando chego tarde demais ou quando estou na hora certa e não posso fazer nada. Isso me corrói de dentro pra fora. Sei que sangraria por todos os poros se tivesse culpa pelo sofrimento de alguém, muito por isso ando só.
Minha sombra insiste em me acompanhar. Só permito quando ainda é dia, – pois a noite é sempre perigosa – e ainda assim dou condições: que ela ande sempre atrás de mim, assim posso protegê-la. Se ela insiste na teimosia e fica ao meu lado, mudo de rota e escolho uma mais segura.
Sei que alguns heróis tiveram seus escudeiros – e acho inclusive que ambos merecem essa menção honrosa -, mas não sou um deles. Não quero ser chamado de herói, aceito alguns me chamando de louco e os mais próximos de egoísta, mas não herói. Não mereço, não faço nada demais, aliás, faço apenas o que acho que devo: minha obrigação.
Não tenho certeza se isso se chama coragem, como alguns dizem. Acho que está mais pra covardia, egoísmo e medo. Egoísmo de não entender que as pessoas também me amam e não concordam com o meu comportamento. Covardia por correr de alguns desafios que encontraria e medo de perder alguém e me culpar pelo resto dos meus dias na Terra.
Desculpem-me por ser assim, mas é isso que sou agora. Juro estar onde estiverem, mas, por favor, não me sigam. Juro aparecer sempre que precisarem. Desculpem-me se por vezes demoro a ouvir alguns chamados, é que não posso olhar apenas para um me esquecer dos demais. Talvez você não tenha nem me chamado e talvez nem me queira por perto.
Eu estarei lá. Mesmo sem saber voar, ter uma identidade secreta, uma cabine telefônica e sem usar uma capa.
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Um comentário sobre “Não uso capa”

  1. Não sei o que um Carlos Drumond ou um Fernando Pessoa disseram, quando no início de carreira foram comparados com os grandes escritores, mas com certeza não se importaram também com o fato de não saberem voar, não terem uma capa, identidade secreta e cabine telefônica. Eles tinham o que você tem, vontade e talento. Maturidade criativa vem com o tempo.

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